Entre Dados e Pessoas: O Papel Transformador da Enfermagem na Investigação Clínica
Ana Rita Leal de Nóbrega
Enfermeira coordenadora do CRIDermatologia da ULSAS
A investigação clínica tem sido, ao longo das últimas
décadas, uma das forças motrizes da inovação em saúde. Contudo, por detrás dos
protocolos, dos indicadores e das métricas de eficácia, existe uma dimensão
humana que frequentemente permanece invisível. É precisamente neste espaço —
entre os dados e as pessoas — que a enfermagem assume um papel transformador,
capaz de influenciar não apenas a qualidade da investigação, mas também a
experiência e a segurança dos participantes nos diferentes estudos.
A participação da enfermagem em ensaios clínicos tem
crescido de forma consistente, refletindo a maturidade científica e a autonomia
profissional que a profissão conquistou. No contexto da dermatologia, onde se
testam terapêuticas inovadoras para afeções cutâneas tais como psoríase,
dermatite atópica, hidradenite supurativa ou alopecia areata, o contributo dos
enfermeiros é particularmente evidente. A sua intervenção não se limita unicamente
à execução técnica, mas sim a uma intervenção que integra conhecimento
científico, sensibilidade clínica e capacidade de comunicação terapêutica.
O enfermeiro representa um ponto de contato do
participante com o ensaio clínico e articula com a restante equipa de
investigação. É também ele quem acolhe dúvidas, quem identifica receios, quem
traduz linguagem técnica em informação compreensível e quem garante que cada
pessoa se sente segura e respeitada. Esta dimensão relacional não é acessória —
é central. A adesão rigorosa ao protocolo, a fiabilidade dos dados recolhidos e
a deteção precoce de eventos adversos dependem, em grande medida, da qualidade
desta relação. No contexto rigoroso de um ensaio clínico, onde cada dado é mensurado, cada procedimento é rigorosamente protocolado e cada desvio pode comprometer
resultados, existe um elemento que não se quantifica, mas que transforma
profundamente a experiência do participante: a relação terapêutica entre
enfermeiro e doente. Esta, é uma relação que nasce do encontro entre duas
vulnerabilidades — a de quem procura respostas para a sua condição e a de quem
assume a responsabilidade ética de cuidar. O enfermeiro acolhe o doente não
apenas como participante de um estudo, mas como pessoa inteira, com receios,
expectativas e histórias que não cabem nos formulários de consentimento. A
relação terapêutica torna-se, assim, um facilitador essencial no decorrer do ensaio
clínico. Quando o doente se sente ouvido, respeitado e compreendido, a adesão
ao protocolo deixa de ser um ato mecânico e passa a ser uma decisão partilhada.
A comunicação flui com mais clareza, os sintomas são relatados com maior
precisão, e os eventos adversos são identificados mais cedo — não porque o
protocolo o exige, mas porque existe confiança para o fazer.
O enfermeiro, com a sua presença contínua e sensível,
traduz a complexidade científica em linguagem humana. Explica, tranquiliza,
orienta e acompanha. É capaz de reconhecer o silêncio que denuncia medo, a
hesitação que revela dúvida, ou o olhar que pede mais tempo. Esta capacidade de
ler para além do visível é o que permite que o ensaio clínico decorra com
segurança, rigor e humanidade.
No fundo, a relação terapêutica é o fio invisível que
liga o doente ao processo científico. Sem ela, o ensaio clínico seria apenas
uma sequência de procedimentos. Com ela, torna-se um percurso partilhado, onde
a ciência avança sem perder de vista a dignidade de quem a torna possível.
Mas o papel da enfermagem vai muito além da empatia. A
vertente técnico‑científica é exigente e altamente especializada: recolha
sistemática de dados, monitorização contínua, avaliação de parâmetros clínicos, registo rigoroso e vigilância
ativa. Simultaneamente, a enfermagem desempenha uma função de mediação
essencial. Entre o participante e a equipa multidisciplinar, o enfermeiro
traduz sinais clínicos, contextualiza alterações, comunica riscos e propõe
intervenções. Esta ponte não só melhora a fluidez do processo, como contribui
para uma abordagem verdadeiramente centrada na pessoa — algo que a investigação
clínica, por vezes, tende a secundarizar em nome da objetividade científica.
Num tempo em que a investigação clínica se torna cada vez
mais complexa, tecnológica e regulada, a atualização contínua de conhecimentos
é uma exigência incontornável. A enfermagem responde a este desafio com
formação, especialização e compromisso ético, reforçando a sua posição como
agente ativo na produção de conhecimento e na melhoria das práticas clínicas.
Defendo, por isso, que a
presença da enfermagem nos ensaios clínicos não é apenas desejável — é
absolutamente indispensável. Sem o olhar clínico, humano e crítico de
enfermagem, a investigação perde profundidade, perde segurança e perde a
capacidade de compreender a pessoa para além do protocolo. A ciência precisa de
dados, mas precisa igualmente de quem os saiba interpretar à luz da experiência
humana, com sensibilidade, rigor e consciência ética.
Entre dados e pessoas, a
enfermagem assume-se como o elo que transforma investigação em cuidado, e
cuidado em conhecimento. É este contributo — silencioso, rigoroso e
profundamente humano — que sustenta a qualidade dos ensaios clínicos e garante
que, mesmo num ambiente altamente técnico, a dignidade e a singularidade de
cada participante permanecem no centro. A enfermagem não apenas acompanha o
processo científico: humaniza-o, fortalece-o e dá-lhe sentido. É por isso que
continua a afirmar-se como uma força essencial na evolução da saúde e no avanço
da ciência.
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